Entrevista
 

 

Entrevista | Entrevista com Abigail Collins por Emilliano Freitas, Fabrício Muriana e Juliene Codognotto

Dá-lhe barra de cereal ou “então é por isso que ela não tem barriga?”

Não é só a resistência física que impressiona na inglesa Abigail Collins, mas é isso também. Com um espetáculo muito intenso, que exige extrema habilidade corporal, a atriz-bailarina-malabarista-comediante-loquinha vai realizar, no total, 10 apresentações em espaços públicos de Belo Horizonte, entre os dias 27 de junho e 3 de julho. Dá-lhe barra de cereal. Calcula-se que, em cada apresentação Abigail perca o tanto de calorias que um ser humano normal perde em um ano, no mínimo.

No entanto, ter fôlego não bastaria para que um espetáculo tão ousado funcionasse. A moça - que começou na dança, se formou na universidade e só depois foi para a escola de circo - se dispõe nessa peça a formar, nada mais, nada menos, que uma trupe circense com componentes da platéia. Só homens, de tipos diversos, são escolhidos e tratados sem concessões a partir daí, destinados cruelmente a cumprir todas as ordens da artista. Acidentes diversos poderiam acontecer nessa maluquice toda, mas o carisma de Abigail e sua entrega total fazem da peça uma evidência de um diálogo intenso e extremamente cômico entre o artista e seu público.

Assustados, fomos – três críticos babões – pedir pra fazer algumas perguntas a ela. “Só duas perguntinhas!” que se transformaram em quatro, sempre respondidas com a mesma simpatia, como se, em vez de ter se exercitado (muito!) por 50 minutos, ela tivesse ficado o tempo todo relaxando, tomando uma cachacinha mineira.*

As interações que você propõe nessa peça são muito intensas e às vezes até um pouco violentas. Como você define o limite dessa relação com o público?

Isso é diferente em cada apresentação. Depende do lugar, de cada público. Tenho que saber o quanto posso ser maldosa, saber que “com essa pessoa posso falar isso, com essa não”, saber quando posso dizer: “ah, um tapinha não dói”. Por isso, no começo, faço uma boa parte da peça praticamente no meio da platéia, pra descobrir as pessoas e encontrar o Vladimir, que é o mais importante desse espetáculo.

Como você sente a diferença entre a apresentação de ontem, num espaço menor, com menos gente (Praça Padre Marcelo) e a de hoje?

A diferença é principalmente no público. Lá eram mais pessoas de teatro, aqui é um público mais variado, e o espetáculo busca isso, procura ser para crianças, adultos, velhos, ser uma obra de “todos para todos” (nessa hora ela falou em espanhol).

Trata-se de uma performance arriscada. Como você lida com esse risco?

Arriscada aqui no Brasil, onde todo mundo tem o corpo mole! O europeu não, é todo durinho, do tipo “nunca tiro minha roupa, nunca faço sexo”, aí fica mais fácil ficar firme. Aqui eu me apoio na pessoa e ela balança. Parece que está todo mundo sambando o tempo todo. Eu tenho que dizer: “ok, agora pára de sambar e me segura!”. (risos)

Falando em sexualidade, ela é muito presente na peça, mas não de maneira vulgar. Isso é uma pesquisa sua?

Não é uma peça pornográfica. Em inglês existe uma expressão, “coony”, que quer dizer bobo, idiota. Então posso dizer que é “coonygraphic”. Tenho um amigo nos EUA que leva os filhos ao cinema para verem filmes de guerra, com tiros, mortes, brigas, mas não deixa que eles assistam se tiver beijo. Então, o meu espetáculo acaba sendo algo como: “faça amor, não guerra”. Além disso, se as crianças, por exemplo, entenderem as partes sensuais com maldade, não é culpa minha, mas dos pais e da educação que deram a elas.

* Atenção: essa entrevista não está publicada na íntegra porque a íntegra não foi gravada. Na hora H, nosso gravador não funcionou como deveria. Sabe comé, né? Compramos no Stand Center, aquele que fechou. De todo modo, achamos por bem fazer este recorte de memória. Tem filósofo que diz que a memória age, nas criações e edições, de forma criativa e positiva. Vamos torcer pra que ele esteja certo.

Publicado em 1, July, 2008

 
    
 
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